terça-feira, 17 de novembro de 2009

Meu artigo sobre o caso Geisy, publicado no Jornal do Brasil de ontem

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Em atenção a Geisy
Cláudia Versiani

Betty Friedan deve estar se revirando na tumba. Mais de quarenta anos depois do movimento feminista que ela liderou, a estudante Geisy Arruda quase foi expulsa da Universidade Bandeirantes (Uniban), depois de agredida pelos colegas por estar de roupa curta e justa.

Nessa época de cachorras, de cervejaria cujo nome é um adjetivo pejorativo para denominar mulheres ditas “fáceis” e de outros que tais, o que pensar? Vivemos uma regressão? A sociedade esqueceu o passado? A juventude, mais pragmática e menos ideológica, é alienada e não está nem aí? As mulheres abriram mão de suas conquistas, ou talvez desconheçam os direitos pelos quais se bateram as que vieram antes delas?

Não sejamos pessimistas. Nem tudo está perdido. A Diretoria de Mulheres da União Nacional dos Estudantes (UNE) lançou nota exemplar. Vale reproduzir alguns trechos:

“É (...) fruto de uma construção cultural, e não biológica, que os homens não podem controlar seus instintos sexuais e as mulheres devem se resguardar em roupas que não ponham seus corpos à mostra. (...) As mulheres devem seguir regras de conduta e comportamento ideais, a partir de um padrão estético que as condiciona a viver sob as rédeas da sociedade (...).

Esse desfecho (tentativa de expulsão da aluna), somado às diversas abordagens distorcidas do fato na mídia, demonstram a situação de opressão que todas nós, mulheres, vivemos em nosso cotidiano. Situação em que mulheres, e tudo o que está relacionado a elas, são desvalorizadas e depreciadas. A mulher é vista como uma mercadoria - ora utilizada para vender algum produto, ora tolhida de autonomia e direitos, ora violentada, estigmatizada e depreciada. É essa concepção que acaba por produzir e reproduzir o machismo, violência e sexismo próprios do patriarcado. Tal concepção permitiu o desrespeito à estudante.

Nós, mulheres estudantes brasileiras, em contraposição a essa situação, estamos constantemente em luta até que todas as mulheres sejam livres do machismo, da violência, do desrespeito e da opressão que nos cerca.

Repudiamos o ato de violência dos alunos contra a estudante de turismo, repudiamos a reação da mídia que insiste em mistificar o fato e não colocar a violência de cunho sexista no centro do debate, e denunciamos a atitude da universidade de punir a estudante ao invés daqueles que provocaram tal situação.”

É curioso – e dramático – que Geisy, e não seus agressores, tenha sido vista como merecedora de punição tão drástica. Mas é também curioso e dramático que, anos atrás, um amigo promotor de justiça, pessoa que considerávamos dos “nossos”, da turma de praia e chope, tenha justificado o ato de um estuprador pela roupa pouco decente que a vítima usava. Tal e qual a direção da Uniban, que tentou expulsar a moça. Tal e qual denuncia a nota da UNE.

O machismo e a violência sexista têm raízes profundas. São muitos séculos, muitos milênios. Confúcio já dizia que a mulher é o que há de mais corrupto e corruptível. Aristóteles a considerava como um homem inferior. As Leis de Manu, livro sagrado da Índia, dizem que uma mulher nunca deve governar a si própria. O Alcorão afirma que não se legou maior calamidade ao homem do que a mulher. Petrarca achava a mulher inimiga da paz, fonte de inquietação, causa de brigas que destroem a tranquilidade. Até mesmo Hegel garantia que a mulher pode ser educada, mas que sua mente não é adequada às ciências mais elevadas, à filosofia e a algumas das artes.

Com tantos antecedentes, não é de se espantar o que aconteceu. Muita água passou por debaixo da ponte. As coisas mudaram. Mas nem tanto. A Uniban e os seus alunos estão aí mesmo para esfregar na nossa cara, na cara da Geisy, o resultado desse aprendizado e desse treinamento milenar a que os homens – e também as mulheres - foram submetidos.

Mas não desanimemos. Encaremos a questão de modo dialético. A realidade é contraditória e está em permanente transformação. São três passos para frente e dois para trás. Salva-se um passo, que foi andado e do qual não abdicaremos.

9 comentários:

Lauro Machado Coelho disse...

Cláudia, nada melhor do que este momento da leitura de seu artigo para eu te repetir aquilo que você já sabe: eu me orgulho de te conhecer. Tem coisas que são tão presentes na vida da gente que acabamos achando que não é preciso mais repetir. No meio da roda-viva que têm sido os últimos dias para mim, isso de que você fala tem me feito sentir muita vergonha. Qualquer intelectual pode alegar que Petrarca tinha a desculpa de viver no na transição da Idade Média para o Renascimento, e de dizer isso porque a mulher que tirava a paz do mundo tinha, antes de mais nada, tirado a paz dele. Mas se você disser que Petrarca nunca agrediu Laura, esse mesmo intelectual vai te dizer que na época mulher não usava decote e nem mini-saia, e que as coxas da loura e alva musa do poeta mediterrâneo não deviam ser tão provocantes quanto as de uma carioquinha gostosa. E se você lembrar a ele que Montaigne, no século XVII, disse que a razão é uma xícara de duas asas e a gente pode pegá-la por uma, ou pela outra, ele vai dizer: ahá, agora nós estamos falando da mesma coisa: a Geisy tinha a obrigação de ter juízo e saber que quem sai na chuva é para se molhar! A única coisa que não devgemos fazer é bater no peito e gritar, bem alto, para todo mundo ouvir: Mato ou morro! (ou fujo pro mato, ou fujo pro morro). Quer saber de uma coisa? Com aquela falta de vergonha de quem te conhece desde sempre, meu amor, obrigado por escrever por mim o artigo que eu gostaria de ter escrito. E, no dia do laranjinha, eu vou lá para ficar indo de um grupinho pro outro dizendo: "sabe, ela é minha amiga"... que nem a mãe judia.
Lauro.

Guiga disse...

Queridíssima Cláudia,

Li seu artigo e gostei muito do texto, como sempre acontece quando leio seus escritos. Nada justifica a violência, o desrespeito e o preconceito contra a moça, causadores de justa indignação por parte das mulheres e dos homens interessados em um mundo de mais harmonia e justiça.

No entanto, p´ra variar tenho aqui um considerando. É direito inalienável de qualquer mulher escolher suas vestimentas, concordo 100%. Porém, ao escolher sua roupa, homens e mulheres devem se dar conta de que - felizmente - a nudez é erótica. Não sei ao certo - e acho que ninguém sabe - quanto disto é biológico e quanto é cultural. Mas o fato é que assim é. Isto considerado, tendo a acreditar que a exposição insinuante e indistinta do corpo é uma escolha estranha de uma pessoa, algo como uma convocação erótica generalizada por parte de alguém que, na verdade, não está desejando fazer sexo com todos. Não sei se vc me entende...

Por isto, me parece absolutamente razoável que nenhuma mulher séria goste de ter como companheiro um cara que sai por aí vestido sempre de forma provocante, do mesmo modo que nenhum homem sério escolherá uma parceira que anda por aí o tempo todo mostrando mais do que escondendo. A praia é uma espécie de licença poética... uma exceção que confirma a regra, não sem antes atear fogo aos desejos e fantasias dos frequentadores...

Aí mora, ao meu ver, o equívoco do feminismo mais fundamentalista. Junto com as lutas que contam com todo meu carinho e apoio (igualdade de oportunidades profissionais, justa repartição das responsabilidades com a família e a casa, etc.), vem uma coisa meio estranha de queimar sutiãs e defender o direito à exposição do corpo. O que se quer com isto? Que a exposição do corpo deixe de provocar atração sexual? Francamente, acho esta última parte uma verdadeira cruzada anti-tesão. Uma bobagem muito da desorientada.

Acho que vc vai ficar brava comigo, até por solidariedade com todas as correntes das nobres e guerreiras combatentes feministas. Mas no fundo tenho alguma esperança de que concorde, sendo a pessoa ponderada que é.

Grande beijo.

Guiga

Hedibert Lopes disse...

Oi Claudia,
Muito legal sua materia. Gostaria muito de ler seu livro. Voce poderia me mandar uma copia ou me indicar onde posso compra-la.
Beijao,
Hedibert

Saul Vibranovski disse...

Olá Claudia,

muito bom, parabéns

não deu para ir ao lançamento do Gabriel, ficamos devendo...

bjs

Saul

Madalena Sapucaia disse...

Claudia,

parabéns pelo artigo ! A luta continua!
Por falar nisso, com muito orgulho, minha filhota está trabalhando em
Brasília na Secretaria da Defesa das Mulheres com a Nilcéia Freire e a
mãe aqui babando.......
Vamso marcar um almoço nas férias da PUC?
beijos
Madalena

Márcio Paschoal disse...

Já tinha lido no jornal....
muito bom~bjus
MP

Maria Tereza Maldonado disse...

Muito bom, Cláudia. Não é fácil transformar um padrão tão antigo, mas continuaremos tentando!

Beijos
Maria Tereza
--
www.mtmaldonado.com.br

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Bruno Rabelo Versiani disse...

Lemos seu artigo sobre a menina da mini-saia e estamos tb solidários com suas posições, muito bem fundamentadas.

Bjs., Bruno

Célia disse...

Muito bom!
Bjs,
Célia